O flamenco tem a força

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Francisca, minha avó paterna, era de Almería, na ponta do Sul da Espanha. Veio para o Brasil mocinha. Nunca soube se ela sabia bailar flamenco. Quando a conheci, já estava bem velhinha, na cadeira de rodas. Lembro dela com longos cabelos brancos presos num coque. Nas mãos trêmulas, ela apertava notas de dinheiro bem dobradinhas, em oito partes, que dava aos netos para comprar sorvete. Mas penso, intuitivamente, que é pelo lado dela que o flamenco tanto me emociona e atrai. Talvez também porque minha família sempre mudou muito de cidade, o que me fez sentir um pouco cigana e sem raízes. Fincar os pés no chão, no sapateado flamenco, não deixa de ser uma forma de “aterrar”. Só sei que o som da guitarra flamenca fisga meu coração. O cante toca minha alma. E, como paixão não se explica, essa foi a dança que escolhi aprender do zero, depois dos 40 anos, e que me desafia diariamente. Vera bata 2 O baile arrebatador de Vera Alejandra Biglione, no espetáculo América Flamenca, Teatro Folha, 2014. Foto: Tomas Kolish

No flamenco não existe meio termo. É tudo ou nada. Não consegue tomar uma decisão? Comece a aprender flamenco e com o tempo vai ver… tudo fica mais claro. “Esta dança é a coragem. Outras danças são alegres. A alegria desta é séria. É o triunfo mortal de viver o que importa.” O trecho do texto Espanha, de Clarice Lispector, traduz a urgência do flamenco e me lembra do que pensei, exausta e feliz, ao fim de uma aula com la gran maestra Juana Amaya: flamenco não é para os fracos. A bailaora espanhola, uma das maiores de sua geração, esteve no Brasil no final de março, por curta temporada, para algumas classes, na Cuadra Flamenca, escola que escolhi por ser um dos centros de estudos de flamenco mais genuínos de São Paulo. Sob a batuta da maestra Vera Alejandra Biglione, precursora do flamenco contemporâneo no Brasil e uma das grandes culpadas por eu cair de amores por essa dança, a Cuadra é um pedacinho do Sul da Espanha no bairro de Pinheiros. Um ponto de encontro de guitarristas, cantaores, bailaores dos bons, além de promover cursos internacionais como o da Juana Amaya.

Nem nos sonhos mais loucos imaginei que, com pouco mais de um ano de aulas, conseguiria sapatear no ritmo da bailaora espanhola, o que me fez ver o quanto a base que ganhei na Cuadra faz a diferença. “Mas rápido! Flamenco es como la vida. No espera!”, diz Juana, entre um passo e outro. Mais tarde, na sala espelhada em que nos encontramos para a entrevista, menciono meu pensamento de que os fracos não têm vez nessa dança. “O flamenco é para todos”, golpeia Juana. “Para todos os que o recebem de coração aberto.” 10393780_1558841241029570_2865253462739654296_n Juana Amaya em cena. Foto: Divulgação

Juana Amaya vem uma dinastia cigana, do povoado de Morón de la Frontera, perto de Sevilha, no coração da Andaluzia –o berço do flamenco. Leva nas veias o sangue das famílias Vargas e Amaya. Sua avó Francisca (como a minha!), tinha o sobrenome “Amaya Amaya”. O célebre guitarrista flamenco Diego Amaya Flores, mais conhecido como Diego Del Gastor, era o tio que embalava os encontros da família festeira e dançante. Juana começou a dançar tão chiquita, que as primeiras lembranças que tem de si mesma, bailando, são de brincadeira. “Havia um pátio cheio de flores, no bairro de Santa Cruz. Eu e meu primo Ramón (Barrull), um pouco mais velho, bailávamos ali. Me recordo de bailar brincando e de estar todo dia bailando”, diz. Aos 9 anos, já era a estrela mascote das peñas de Morón e de Alcalá, com seu baile selvagem e doce, como o flamenco que ela traduz e ensina. “Hay que tener ganas, mas sem perder a sensibilidade. O flamenco, como a música, vive do sentimento humano: alegria, tristeza, morte, amor, desamor. Acima de tudo, é uma forma de vida. Vives com ele e morres com ele. O flamenco é uma religião”, ela diz.

Com a guitarra mágica de seu tio Diego, Morón de la Frontera passou a atrair gente de todas as partes do mundo e de todos os cantos da Espanha. Gente como o bailador e coreógrafo Mario Maya que, encantado com a pequena Juana, fez dela, aos 13 anos, a primeira bailarina de sua companhia. Foi quando ela se deu conta de que bailava profissionalmente. “Naquela época não havia tantas escolas, tanta comunicação. Os artistas se formavam trabalhando. Hoje, é uma sorte ter tanta informação e formação”, diz. Pelo mundo afora, Juana Amaya, assim como seu primo Ramón Barrull, se tornaram ícones do flamenco. Barrull, contudo, morreu cedo e ela seguiu bailando com todos os grandes: Joaquín Cortés, Antonio Canales, Manolete, Farruquito… Mais fácil, talvez, dizer com quem Juana Amaya não bailou.

10560431_445823842224768_4425236236010443101_o O fogo do flamenco de Ana Marzagão. Foto: Maria D’Cajas

A maestra veio p​ela primeira vez ​ao Brasil, graças a iniciativa das flamencas Vera Alejandra (Cuadra Flamenca) e Ana Marzagã​o (na foto acima) –duas apaixonadas pe​lo trabalho de ​​​Juana Amaya. Vera Alejandra​, minha atual maestra,​ iniciou​ com a​ bailarina espanhola Ana Esmeralda, rodou o mundo com sua arte​, ​com passagens por Espanha e Argentina​, ​e dirige a sua querida Cuadra Flamenca, com ​fuerza no tacón​​!, há dez anos.”O Flamenco é uma força avassaladora, e quando você é ​’​fisgado​’​ por essa força​,​ não há como não entregar-se. ​Para mim, essa dança deve vir sempre acompanhada de verdade, a sua verdade, a sua história pessoal, pois ​afinal ​nasceu contando a história desse maravilhoso povo andaluz​ e​ dos gitanos​,​ especialmente​. É o que procuro fazer na Cuadra Flamenca, um trabalho sincero e com paixão​, ​tentar tirar o melhor de cada um e traduzi-lo para a linguagem flamenca​.​ ​T​er feito essa parceria para trazer a Juana Amaya foi como reafirmar essa busca do flamenco verdadeiro e puro, pois​ é o flamenco que ela carrega em sua arte​”, diz Vera Alejandra.

Se o Flamenco é uma religião, a Cuadra é minha igreja, onde aprendi e aprendo também com professores incríveis como Isabel Pato, Maissa Bakri e Ulisses Ruedas, com estilos inconfundíveis e talento único. Ana Marzagão, minha primeira professora na Cuadra (onde​ ela ​iniciou sua vida profissional como bailaora), quando a escola ficava numa casa antiga e poética, em frente a um cemitério, tem uma longa e linda trajetória, que envolve ​um ano ​em Sevilha e aulas no estú​​dio de Juana Amaya. Sobre o Brasil, Juana se declarou encantada com as pessoas, o sol, a rítmica, o ca​lor humano.​​ “Aqui é muito parecido com a Andaluzia”, diz. Para quem está nos primeiros passos da dança, como eu, la gran maestra deixa o recado: “Insista, não desista. O flamenco é um aprendizado eterno. Quando pensas que conquistou algo, vem outra fase, outro desafio. Ensaiando, se dedicando e tendo ‘ganas’, tudo sai.” Até mesmo a lembrança de uma letra de cante, que Juana hesita em puxar da memória. “O cante não se trata da letra, mas da maneira de cantar. São letras de pena, de lágrimas, por que nasceram do sofrimento de gente pobre, marginalizada, pessoas que não têm mais nada, mas saem bailando e cantando”, segue ela, ensinando. Por fim, se lembra de quatro frases de uma soleá, “a mãe de todos os palos (nome que recebe cada cante)”, que diz mais do que mil palavras sobre a força “avassaladora” do flamenco:

“Fui piedra y perdí mi centro

y me arrojaron al mar

ya fuerza de mucho tiempo

mi centro volvió a encontrar”

Saiba mais:

Cuadra Flamenca Rua Teodoro Sampaio, 1035, Pinheiros tel. 11 -3088-0291 www.cuadraflamenca.art.br

Para ler: Histórias de Flamenco e Outras Cenas Ciganas, de Cristina da Costa Pereira, editora Tinta Negra

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Mulheres em acrílica sobre tela

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Quem entra no ateliê do artista plástico Eduardo Amarante, no Centro Histórico de Paraty, encontra um universo tão diverso, que chega a imaginar que as telas são de muitos, e não de apenas um artista. São fases distintas: os abstratos, especialmente vermelhos, marcam os momentos mais recentes do pintor. Há também as telas óticas, que confundem o olhar quase em um efeito 3D. As figuras femininas, contudo, roubam a cena na Retrospectiva Eduardo Amarante, exposição que acontece de 6 a 29 de março, na Casa da Cultura de Paraty. A mostra de Amarante reúne obras de 1976 a 2014, a maior parte delas em grandes dimensões, como é o caso das mulheres. Fortes, as figuras femininas vão dos anos 70 até hoje. A partir dos anos 90, Amarante passou a explorar especialmente os abstratos como uma maneira de se desligar da arte narrativa, segundo ele diz, para uma técnica que o deixasse mais livre, leve, solto. As mulheres, na arte, também dão trabalho. Basta olhar para uma das criações femininas do artista para perceber, em cada mínimo detalhe, os meses de atenção que cada uma delas demandou.

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Uma das telas mais impactantes da mostra é Mitsoukette, acrílica sobre tela de 160 X 130 cm, de 1989, pintada em Paris, cidade em que Amarante viveu por 27 anos –4 deles entre a capital francesa e o vilarejo Buis les Baronnies, na região da Provence. “A cultura brasileira influenciou minha realidade na França. As mulheres que pintei nessa fase são uma mistura de Carnaval com refinamento francês”, diz ele. A trajetória do artista é tão inusitada quanto sua obra: natural de Barra Mansa (RJ), aos 18 anos ele deixou a faculdade de Arquitetura, no Rio, e embarcou em um navio cargueiro para a Europa. Em Paris, continuou os estudos acadêmicos, mas logo passou a pintar em tempo integral. Daí não parou mais: depois de algumas exposições no Rio e em Salvador, realizou sua primeira individual em uma galeria parisiense, em 1983, e recebeu o prestigiado prêmio “Aide à la Première Exposition”, concedido pelo Ministério da Cultura da França. Várias outras exposições se seguiram em galerias de prestígio como Galerie Liliane François, Paris (1983, 1985, 1986, 1994), Facchetti Burk Gallery, New York (1983, 1985), Salon Figuration Critique, Paris (1986), Galerie Art et Patrimoine, Paris; Galerie Le Cube, Paris (1992), entre outras e, mais recentemente, a Galeria Günzburg, Überlingen, na Alemanha, em 2012.

Atualmente, Eduardo Amarante se divide entre Paraty, onde mantém seu ateliê, e São Paulo. A Retrospectiva Eduardo Amarante, na Casa da Cultura de Paraty, é uma excelente oportunidade de conhecer melhor e apreciar a vasta obra deste artista contemporâneo em suas diversas fases, incluindo as figuras femininas enigmáticas, ousadas, sobretudo belas. Confira mais algumas delas:

Mel
Mel (acr.sobre tela 116×189 cm, Rio de Janeiro, 1979)

Gigi
Gigi.(acr.sobre tela 80×80 cm, Paris, 1977)

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Femme sur le nuage (acr. sobre tela, 160 x 130 cm, Paris, 1990)

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Musa Dourada (acr.sobre tela 116×87 cm, Paraty, 2014)

Eduardo Amarante Retrospectiva
6 a 29 de março de 2015
Vernissage 6 de março, às 20h
Casa da Cultura de Paraty
Rua Dona Geralda, 177
Centro Histórico, Paraty, RJ
De terça a domingo, das 10h às 22h
Tel. 55 24 3371-2325
www.casadaculturaparaty.org.br

Fotos: Phelipe Paraense

7 musas da MPB que não são a Garota de Ipanema

Desde que passou por Tom e Vinicius com seu “doce balanço a caminho do mar”, a carioca Helô Pinheiro transcendeu a praia de Ipanema. Sua canção ganhou mais de 500 versões, do japonês ao esperanto, e é a segunda mais tocada no planeta depois de Yesterday, dos Beatles. Mas e as outras? E a Camaleoa do Caetano? Alguém conheceu a Conceição do Cauby? E que fim levou a Kátia Flávia do Fausto Fawcett? Descobrir quem são as mulheres nas entrelinhas das partituras musicais é o projeto da minha alma. Uma busca que começou há uma década e resultou no livro “Musas e Músicas –A mulher por trás da canção” (Tinta Negra Bazar Editorial), lançado esse mês.

Se a MPB tem um sexo, ah, ele é feminino. Já o nome… Pode ser Anna, Cecília, Carolina, Beatriz, entre tantos outros que inspiraram o tema que mais ilustra as canções de amor: a mulher. Alguns até tentam disfarçar a identidade da musa em apelidos como Espanhola, Pérola Negra, Risoflora. Encontrei, ao todo, 33 musas reais, fictícias e fugazes –aquelas que apareceram por um momento e sumiram, ou que existiram, mas já se foram. Se todas elas possuem um elo em comum, é que, em algum momento, foram objeto de desejo, admiração ou amor dos artistas que inspiraram. Confira o resumo de algumas histórias:

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1. Lígia (Tom Jobim)
Ah, Ligia, Lígia… Os olhos verdes da carioca Lygia Marina de Moraes são morenos na letra de Lígia. Tom tentou disfarçar a identidade da musa, mas não adiantou… Tom conheceu sua musa numa tarde chuvosa, no lendário Bar Veloso (atual Garota de Ipanema). Lygia, na época, era professora primária de Beth, filha do compositor. A canção fala, de fato, de tudo o que não aconteceu: eles nunca foram ao cinema nem andaram pela praia até o Leblon. Tudo se resumiu a uma carona no fusca azul de Tom, depois que Lygia o acompanhou até a casa da escritora Clarice Lispector, onde ele daria uma entrevista. Anos se passaram, Lygia se casou com o escritor Fernando Sabino, e sempre esteve entre a turma da música, da literatura. Um belo dia, na Cobal (ponto de encontro, no Rio), quando ela já estava separada, Tom admitiu, ao vê-la se aproximar: “Está chegando a minha musa…”

2. Anna Júlia (Los Hermanos)
Nem mesmo o líder e vocalista da banda, Marcelo Camelo, havia imaginado tamanho sucesso para os versos que escreveu para ajudar um amigo tímido a conquistar uma colega de faculdade. Naquele tempo, em 1998, Los Hermanos ainda era uma promissora banda universitária. Os meninos se reuniam ao pé da escada principal do prédio da PUC/Rio. Por ali passava a estudante de jornalismo Anna Julia Werneck, uma versão anos 90 da Garota de Ipanema, com seu doce balanço a caminho da sala de aula. “Quem te vê passar assim por mim, não sabe o que é sofrer”, seria a primeira frase da letra, inspirada na paixão do amigo tímido, estudante de direito e produtor da banda, pela doce –e também tímida –Anna Julia. Ela não imaginava que um dia seu nome cairia na boca do Brasil inteiro. “Eu não conseguia andar na PUC sem ser apontada”, lembra. No papel de musa, viveu durante um ano seus quinze minutos de fama. Ainda hoje, conta que quase diariamente alguém pergunta: “Você é a Anna Júlia da música?”

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3.Gilda (Vinicius de Moraes e Toquinho)
Das nove mulheres de Vinicius de Moraes, ela foi a última –e a única a ter uma música com seu nome. A canção “Gilda” foi um presente de aniversário do poeta da paixão para sua amada, Gilda de Queirós Mattoso, a musa derradeira. “Foi uma música premonitória”, acredita o cantor e compositor Toquinho. “Era como se Vinicius estivesse indo para outra esfera e quisesse levar Gilda junto. Ele sempre dizia que ela era sua última companheira”, conta o autor da melodia, embalada para presente com a letra do poeta. Viveram juntos por apenas um ano e onze meses. Ela lamenta: “Pena que durou tão pouco”.

4.Dona (Sá & Guarabyra)
Quando o compositor Guarabyra conheceu sua “Dona”, ela era uma estudante de veterinária que organizava festivais de música em Jaboticabal, no interior de São Paulo. “A Dona tinha ciúme da Espanhola”, conta ele, citando outra musa que deu título a um de seus maiores sucessos. O encontro aconteceu no final dos anos 70, no bar Dama da Noite, reduto de artistas e boêmios, em Higienópolis. Marisa Saad, a futura Dona, estava em busca de uma atração especial para o festival de música da faculdade –e ofereceu um cachê simbólico. Meses depois do show em prol dos formandos, o músico e a futura veterinária iniciaram um romance que durou 10 anos, entre idas e vindas. “O Gut foi uma paixão muito louca, de muitos anos”, resume Marisa. Sobre a música, atualmente na trilha sonora da novela Império, ela diz: “Como na canção, tenho o lado tirano e o lado meigo. ‘Dona’ é um retrato meu. Fico sem graça ao falar sobre o assunto porque é um retrato divulgado!”, diz a musa.

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5. Preta, Pretinha (Luiz Galvão e Moraes Moreira)
Ele, o poeta. Ela, “a moça mais bonita da cidade”, na definição do compositor Luiz Galvão, parceiro de Moraes na canção que é um dos maiores sucessos comerciais dos Novos Baianos. Maria do Perpétuo Socorro Nogueira e Luiz Galvão foram noivos em Juazeiro (BA), cidade dos dois. O romance durou dois anos, mas cada um seguiu seu rumo na vida. Anos depois, quando escrevia o trecho “Só, somente só…”, Galvão se Le lembrou de “So…corro”. A musa não hesita em afirmar: “Luiz foi meu grande mestre”, surpresa com o título. “Sempre ouvi um zunzum de que a música tinha sido feita para mim, mas nunca vi isso escrito.” Agora viu.

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6. Vera Gata (Caetano Veloso)
Caetano Veloso descobriu que a atriz Vera Zimmermann era uma “gata exata” em 1980, durante a turnê de seu disco Cinema Transcedental. “No camarim, quando fomos apresentados, Caetano olhou para mim e falou ‘Beleza Pura’…, conta a musa da canção “Vera Gata”, gravada no LP Outras Palavras, de 1981. E por aí vai… “Ser musa é ganhar um presente. Nunca desejei ou sequer imaginei viver esse papel. Quando você corre atrás dessas coisas, elas não acontecem. Virei a ‘Vera Gata’ por acaso, é assim até hoje. De vez em quando cruzo com Caetano, tem sempre um carinho entre a gente”, conta Vera Zimmermann em seu depoimento.

7. Madalena (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza)
A Madalena, sucesso na voz de Elis Regina e de Ivan Lins, quem diria, se chama Vera Regina. Deu trabalho rastrear o paradeiro da moça, uma ex-namorada do compositor Ronaldo Monteiro de Souza, letrista da canção. Mas a investigação foi em vão. Vera Regina, bem casada, segundo o recado de um primo dela, prefere continuar incógnita em seu nome composto.

Fotos: arquivo pessoal Lygia Marina| Gilda Mattoso| Maria do Socorro Nogueira| Vera Zimmermann

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Saiba mais: Musas e Músicas –A Mulher por trás da canção, Tinta Negra Bazar Editorial, Rosane Queiroz, 160 págs.

Natal às avessas

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Uma árvore natalina de 25 metros –de ponta cabeça –é o centro das atenções da Galeries Lafayette neste Natal. Estive na loja ícone de Paris uma vez. Obviamente não parei de olhar para cima. Sua cúpula neobizantina multicolorida é hipnótica. E, neste ano, ganha uma imensa árvore, às avessas. Decidida a romper com os clichês, a loja postou no tema “Natal Monstro” para sua tradicional decoração natalina. Inaugurada há uma semana, a big árvore pende da cúpula, às avessas. Além disso, seus “galhos” vão exibir espetáculos musicais e visuais protagonizados por coloridos mostrengos, de hora em hora, certamente mais divertidos do que assustadores.

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Outra novidade da megaloja (são 70 mil metros quadrados, distribuídos em três prédios) é a Lafayette Maison et Gourmet, espaço que, além de reunir produtos para casa e bem estar, passa a oferecer comidinhas e apetrechos ligados à culinária. Nos cinco pisos do novo espaço, o cliente vai encontrar vinhos, entre centenas de bebidas, uma mercearia e novos estandes com produtos para degustação ou para viagem. No subsolo, por exemplo, o projeto lembra uma aldeia com seus açougues, casas de frios e mercearias. Dá água na boca só de imaginar. Vai para Paris no Natal? Dê uma passadinha lá por mim!

4 tendências top em gastronomia

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Assinatura de comida, açúcar de menos, cerveja feita em casa e pratos divididos no restaurante – sem drama. Essas e outras tendências foram apresentadas pela agência J.W. Thompson no 4º Emiliano Market Day, uma feira de alimentação super simpática, com barracas lindas, flores e frutas, criada pelo hotel e restaurante Emiliano, em São Paulo. A ideia do hotel, além de brindar a primavera, é mostrar os comes e bebes que servem aos clientes. Entre degustações, receitas preparadas ao vivo e papos de abrir o apetite, o extrato das novidades mostra que, à mesa, mais do que nunca, menos é mais:

Assinatura de comida

Que tal um bolo fresquinho, entregue na sua porta, toda sexta-feira? Ou aquele pão que chega quentinho, de manhã, ao soar a campainha? Sob medida para os “sem tempo”, as assinaturas de comida estão agarrando cada vez mais adeptos pelo estômago,com pagamento mensal e entregas em dias determinados. Como é que ninguém pensou nisso antes?

No sugar (mesmo!)

“Não consuma açúcar em lugares públicos ou na frente de crianças”. Ao que tudo indica, em breve, o aviso não vai causar espanto . A patrulha contra o açúcar tende a seguir o exemplo do que aconteceu com o cigarro. Me parece um pouco triste um mundo sem docinhos açucarados. Será que pega?

Fermentação caseira

Está na moda e está com tudo fazer pão e cerveja em casa. De preferência com o fermento caseiro também. Daí as confrarias que têm surgido aqui e ali. Literalmente, uma curtição! Uma tendência que se soma a outra: a de consumir cada vez menos industrializados. E aderir cada vez mais aos produtos artesanais, orgânicos, de edição limitada.

Dividir para conquistar

Compartilhar o prato no restaurante agora é in. O que pega mal é deixar comida de lado, num planeta em que tanta gente passa fome. Há um movimento, inclusive, para se criar taxas de desperdício dos clientes e dos restaurantes que jogam comida fora. Tem que comer tudo! Assino embaixo e dou a última garfada.

Os 7 pecados modernos

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Gula, luxúria, ira, inveja, avareza, orgulho, preguiça. Os sete pecados capitais, uma invenção da igreja católica na Idade Média, foram criados no século 6. Ou seja, há 1.500 anos. Será que ainda dá para alimentar culpas modernas com base numa listinha tão antiga? Ansiedade, pânico, TOC, entre outras compulsões contemporâneas, me parecem mais atuais. A escritora Adriana Falcão, autora de textos bem-humorados sobre angústias modernas, concorda comigo (à meia-noite, por e-mail) que os sete pecados capitais andam desatualizados. “As obsessões contemporâneas estão ligadas a essa loucura de internet, redes sociais e comunicação rapidíssima. Está todo mundo ou viciado nessas paradas ou contra elas, e isso gera um monte de sentimentos, inclusive ansiedade”, diz ela. A psicanalista Anna Verônica Mautner, estudiosa dos males atuais, assinala a “crueldade” como o pecado mais em voga. “Há uma falta de empatia pela dor alheia”, diz Anna, lembrando pequenas maldades do cotidiano e crimes hediondos. Seu maior pecado, confessa, é das antigas: a ira. “Sou indignada!”, diz.

Sabe Deus por que, logo eu, me pus a pensar sobre o tema. Publiquei esse texto originalmente na seção “Filosofias” da ótima (pena que extinta) revista “Lola”. Depois de assuntar e filosofar com gregos, ateus, troianos e cristãos, arrisco aqui uma listinha, novamente revisada, do que seriam os 7 pecados do momento:

1 Hiperconectividade
A vida é offline. Mas há quem passe 24 horas conectado, sem ver a superlua lá fora. Sou quarentinha. Do tempo em que a pergunta “No que você está pensando?” era apenas uma frase para quebrar o silêncio entre namorados. Hoje, ao abrir o Facebook, que angústia! Quando não há nada a declarar, melhor “curtir” a vida real. Em relação ao celular, tentação sempre à mão, confesso que eu mesma procuro me policiar, principalmente quando estou acompanhada, em restaurantes ou lugares públicos. Até porque olhar mais para o celular do que para as pessoas é falta de educação no último. Outro dia, em um almoço de trabalho, havia uma mesa redonda com 10 mulheres. Seis delas cutucavam o celular, checando compulsivamente o WhatsApp. Quase ninguém se apresentou. Duas saíram mais cedo. Eu e a última, a única conectada com a realidade -conversamos, rimos, comentamos sobre a comida que estava ótima e, no final, claro, trocamos telefones e nos adicionaram nas redes sociais para manter contato.

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2 Gula gourmand
Não se trata mais de comer além da conta, e sim da obsessão em torno da gastronomia, que faz com que muita gente se torne incapaz de apreciar um camarãozinho ao leite de coco. Para ser bom, o prato tem de se chamar “Carro alegórico dos deuses do mar” ou ser preparado por aquele chef que estudou redução de vinho tannat com o catalão Ferran Adriá. Quando receita e sabor fazem jus ao nome e à fama, vá lá. Mas nada mais irritante do que um menu escalafobético quando resulta em um prato-conceito-sem-gosto, finalizando com uma conta salgadíssima -sem razão de ser (pecado de muitos restaurantes). Paladares indiferentes a uma receita simples, feita com gosto, merecem penitência.

3 Exibicionismo
É a vaidade potencializada pela compulsão online. Não basta ser visto e admirado. O mundo inteiro precisa saber que você tomou suco de pitanga no café da manhã. A exposição da vida íntima em redes sociais, as revistas de fofocas, a era BBB (bobagem ao cubo), tudo entra nesse pacote. A compulsão atinge até mesmo celebridades consagradas. Um assessor de imprensa me conta que uma atriz, já famosa o suficiente e tida como cool, teria inventado gravidez e perda do bebê porque andava sumida das capas revistas. Lama! Contra o excesso de “Olha eu aqui!”, recomenda-se a virtude da discrição, atualmente escassa.

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4 Pressa
– O que você está fazendo?
– Nada.
Faz tempo que não dou nem recebo essa resposta. Na velocidade dos dias, precisamos estar (ou parecer) sempre ocupados. Alguém tem tempo, hoje, para ter preguiça? Quem pode se entregar ao ócio é rei. O problema é que a falta de tempo está ligada também a excesso de informação, falta de organização, falta de foco. Se a pressa é inimiga da perfeição, o resultado é incompetência, outro deslize em alta. Uma dica é reservar uma hora do dia para “não fazer”. Ou rezar cem ave-marias, contando as bolinhas do terço, até retomar o foco.

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5 Ganância
Não contente em ser um só, esse pecado reúne vários outros no mesmo balaio: inveja (querer o que o outro tem), consumismo, orgulho. O ganancioso em geral é prepotente. Acha que ter é saber. E não sabe ouvir. Cai, então, na tentação da arrogância -a coroa sem o reino. Avarento, acumula e não distribui. Mas, quem guarda, tem? Um trecho do poema “Guardar”, de Antonio Cícero, ajuda a refletir: “Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la/ Em cofre não se guarda coisa alguma/Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la/ isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado (…)”.

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6 Luxúria obrigatória
Ah, a luxúria. Que delícia fazer amor bem e bastante. Isso nunca foi pecado, a não ser para quem não gosta da coisa. Mas não pode ser só papai-e-mamãe nem menos do que sete vezes por semana. É preciso transar com parceiros diferentes, em todas as posições do Kama Sutra, em lugares longínquos ou perigosos e ter orgasmos múltiplos. Inclusive quem não tem orgasmo vai para o inferno.

7 Ansiedade
Inquietação, angústia, pânico. A ansiedade é a mãe de várias compulsões incontroláveis. “Ansiosíssima”, a escritora Adriana Falcão conta como se vira nesse purgatório: “Lido com isso de todas as maneiras: ioga, malhação, remédio tarja preta, incenso, mantra, vontade de morrer, vontade de correr, florais de Bach, massagem oriental, caipivodka, oração, música, ou brincando com minha neta, coisa que me dá paz. Acho que não há muita saída não. A vida é isso aí, vou levando”, diz Adriana.

“…E não nos deixe cair em tentação.” Amém.

Ilustrações: Eduardo Amarante (aquarelas da série Os 7 pecados capitais)

Diamantes dia e noite

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Os diamantes eram como dráculas, só saíam à noite. Agora, saem de dia. Essas e outras tendências saltam aos olhos na joalheria atual. “As jóias contemporâneas são criadas para ser desfrutadas a qualquer hora”, diz a expert em joalheria Maria Regina Machado, consultora do IBGM (Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos). Desde que o mundo é mundo, as pedras preciosas fascinam por seu brilho, beleza e valor. “Na história da humanidade, as gemas sempre intermediaram negócios, desejos e amores. Com a novela ‘Império’ em cartaz, as pessoas estão ainda mais curiosas sobre o tema”, comenta Regina, em um passeio pela Feninjer, a principal feira de jóias da América Latina, que acabou de acontecer em São Paulo. Olhar as vitrines de diamantes, turmalinas, opalas e rubis, guiada pelo olhar apurado de Regina, é uma festa. “Qual é a diferença entre diamante e brilhante?”, dispara ela, revelando uma dúvida comum de quem não é íntimo do metiê. Eis a resposta: “Eles são a mesma pessoa. A gema se chama diamante. A lapidação, brilhante. O corte possui um número de facetas ‘x’ que consegue extrair raios ou relações ópticas que geram o brilho”, diz ela. Confira 6 tendências preciosas:

Cores mil

Quanto mais cor, melhor. “Hoje, se mistura roxo com abóbora, turquesa com verde, em peças encantadoras, muitas delas pontuadas por diamantes”, diz a consultora do IBGM. A ousadia cromática surge como uma resposta ao alto preço do ouro, que aparece discretamente, nos detalhes e no avesso das peças (na foto acima, anel duplo “Goldesign”). “Não é mais pelo ouro que se conquista o impacto visual”, diz Regina. Isso faz com que a avaliação de uma jóia não seja mais na base do “vale quanto pesa”. O brinco pode ser levinho e valioso. A mistura de gemas caras com gemas mais acessíveis faz com que não se saiba exatamente onde está o preço. “A jóia, assim, possui um percentual que não é material, e sim a maneira como é inserida no universo do desejo das pessoas”, diz Regina.

Diamante negro

Até há pouco tempo, diamantes negros, marrons e cinzas, embora tão preciosos quanto os brancos e coloridos, eram pouco apreciados e utilizados. O olhar contemporâneo viu a beleza dessas gemas, e deu a elas nomes moderninhos como champanhe, conhaque, fumê, noir… “O brilho do diamante negro é fantástico!”, comenta Regina.

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É o estilo “red carpet”, do ponto de vista da escola de design. Como referência, as gotas, as formas ovais, o tradicional revisitado, o vintage (na foto, brincos Basel Preziose). “Um olhar que valoriza a história da jóia”, resume Regina.

Brinco pastilha

Como aquele da vovó, de pressão. Só que não. Emoldurado por pedras, têm uma mecanica dupla, que prende tanto pelo furo na orelha quanto pelo clipe de pressão. Você esquece que está com ele!

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Maxipérolas

Elas aparecem em novos contextos, mixadas a materiais modernos, como aço escovado e madeira. Chanel apostou recentemente nas pérolas gigantes (foto) e Dior em brincos que envolvem todo o lóbulo, feitos com duas esferas. “Chanel sempre mostrou que colares não necessariamente deixam a mulher mais velha ou careta. É um assessório jovial, feminino, e com uma variedade de preços incrível. Não é uma jóia de ostentação, mas de estilo”, comenta a consultora.

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Turmalina Paraíba

Os números reluzem: 2/3 das gemas coradas do mundo são importadas do Brasil. A turquesa turmalina Paraíba, pedra ‘darling’ do momento, leva o nome do estado em que foi descoberta. E concorre com o diamante no preço. Moçambique também tem turmalinas azuis. “Mas as brasileiras são as mais brilhantes”, garante Maria Regina Machado.